A história das consolidações na indústria de satélites

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Desde o seu início, no final dos anos 50, os satélites se desenvolveram fortemente e hoje já representam uma indústria de U$ 386 bilhões, segundo levantamento da Bryce Consulting com a Satellite Industry Association(SIA). Nesses mais de 60 anos, diversos fatores impulsionaram essa indústria. Nos anos próximos à virada do século, um movimento de consolidações chama a atenção como estratégia de crescimento do setor. É essa a história que vamos contar nesta e nas próximas duas edições do Abrasat Notícias. Vamos mostrar que acontecimentos levaram a essa tendência, quais foram os antecedentes necessários para a transformação da indústria como ela é hoje e quais os marcos dessa transformação.

Dividimos o conteúdo em três partes. Nesta primeira, falaremos da formação da indústria e da importância da criação do  INTELSAT. Na próxima edição, como, a partir do desenvolvimento tecnológico e industrial trazido por esta organização intergovernamental, começaram a surgir iniciativas regionais e de capital privado até a quebra do monopólio. Na terceira edição, vamos mostrar como as empresas criadas nesse período começaram a expansão de seus negócios, dos seus países para o resto do mundo, e também uma análise sobre como será o futuro dessa indústria. Colaboraram para a produção dessas edições, Luiz Francisco Perrone e Gerson Souto, profissionais do setor que atuaram em empresas como Embratel, Intelsat e SES nesse período.

A formação da Indústria

A indústria de satélites começou a se desenhar no final dos anos 50, durante a Guerra Fria e em meio à corrida espacial, que se caracterizou pela disputa na exploração do espaço entre norte-americanos e soviéticos (1957 a 1975).

“Dominar” o espaço era algo fundamental dentro da disputa que era travada entre as duas nações, pois aquele que conquistasse essa nova fronteira da humanidade evidenciaria seu papel de superpotência global. O primeiro grande marco da corrida espacial foi um feito soviético. No dia 4 de outubro de 1957, foi lançado o Sputnik 1, primeiro satélite artificial a girar na órbita da Terra. Como reação a essa iniciativa soviética, o governo norte-americano decidiu que o país deveria trabalhar para se tornar uma potência espacial. Nessa época o mundo carecia de sistemas de comunicações intercontinentais. Só havia cabos submarinos e sistemas de rádio HF de baixíssima capacidade. O governo norte-americano identificou essa carência e uma provável demanda futura por telecomunicações intercontinentais via satélite.

A ideia, a partir daí, foi desenvolver e oferecer para o mundo, comunicação via satélite para telefonia e televisão. Inicialmente, algumas empresas de telecomunicações internacionais americanas se dispuseram a desenvolver um projeto de satélites de comunicações mundial que, além do potencial como negócio lucrativo, ainda impulsionaria a indústria espacial americana. Mas os demais países não concordaram com a proposta. Europa, Japão, entre outros, consideraram que comunicações internacionais não deveriam ficar sob o controle de uma única nação.

Nasce o INTELSAT

Foi nesse contexto que surgiu a ideia da criação de um consórcio internacional para operar as telecomunicações internacionais, onde os países associados seriam dirigentes. Nasce assim o INTELSAT, com o objetivo de ser uma organização internacional para lidar com telecomunicações por satélite. Reunia inicialmente sete países e operou de 1964 a 2001 como um consórcio intergovernamental. O acordo de 1964 foi um acordo provisório. A organização internacional permanente foi estabelecida em 1973.Nesse ano já havia 81 signatários. O INTELSAT funcionava nos padrões da ONU: reuniões e documentos em três línguas, comitês técnico, de planejamento e finanças, e conselho de administração com representantes de todos os países qualificados.

A posse e os investimentos no INTELSAT, medidos em ações, eram distribuídos entre os membros de acordo com o uso dos serviços. A entidade lançou o primeiro satélite geoestacionário, chamado Early Bird (INTELSAT 1), e fez a primeira transmissão de satélite geoestacionário no mundo, em 1965. A chegada do homem à lua, em 1969, foi uma das transmissões mais marcantes de vídeo realizadas para todo o mundo pelo INTELSAT. Aquele momento catapultou essa indústria espacial de nível.

Nota: A AT&T foi a empresa norte-americana pioneira em comunicações via satélite, tendo realizado em 23 de julho de 1962 a primeira transmissão de TV via satélite entre a Europa e a América do Norte através do satélite Telstar1, operando em órbita elíptica.

Os acordos internacionais

O INTELSAT foi criado como uma entidade regida, inicialmente, por dois acordos internacionais: o acordo que estabelecia as disposições básicas, os princípios e a estrutura da organização, assinado pelos governos por meio de seus ministérios das Relações Exteriores, e um acordo operacional que estabelecia disposições financeiras e técnicas mais detalhadas e assinado pelos governos ou suas entidades de telecomunicações designadas. O governo brasileiro era representado pelo Ministério das Comunicações e no acordo operacional, a Embratel foi designada para ser o representante do país. A COMSAT representava os EUA, France Telecom a França, e assim por diante, cada país designou uma entidade de caráter privado e realizou investimento financeiro para a criação do INTELSAT.

A entidade cumpriu um papel importante: trouxe um desenvolvimento universal de comunicações por satélite, os países ficaram satisfeitos com o controle descentralizado das telecomunicações, e ainda impactou o crescimento de uma entidade semelhante que estava sendo criada na União Soviética, a Intersputnik – International Organization of Space Communications -uma organização internacional de serviços de comunicações via satélite, totalmente estatal, fundada em 15 de novembro de 1971, em Moscou, pela União Soviética, juntamente com um grupo de oito estados socialistas: Polônia, Tchecoslováquia, Alemanha Oriental, Hungria, Romênia, Bulgária, Mongólia, e Cuba. O objetivo era o desenvolvimento e uso comum de satélites de comunicações. Desde 2008 a organização tem 25 países membros, entre os quais a Alemanha como o sucessor legal da Alemanha Oriental.

Os programas nacionais

Na criação do INTELSAT, foram colocadas algumas cláusulas de proteção. Não era permitido aos países, por exemplo, prestarem serviços internacionais via satélite sem antes haver coordenação técnica e econômica com o INTELSAT, e serviços nacionais sem antes haver apenas a coordenação técnica. Ainda assim, começaram a surgir os programas nacionais. Países como os EUA, por suas dimensões continentais, começaram a desenvolver os seus satélites. O Canadá também se tornou um grande player. Além de fabricação de satélites, o país fundou a TELESAT, um dos pioneiros operadores de satélites no mundo.

O Brasil decidiu criar o Sistema Brasileiro de Telecomunicações por Satélite –SBTS –para acelerar o crescimento das telecomunicações e radiodifusão, interligando todo país via satélite. A EMBRATEL era a operadora do SBTS na época. No início, esses projetos eram voltados para ambições nacionais, normalmente liderados por empresas estatais de telecomunicações e correios. Na sequência, começaram a se desenvolver projetos na iniciativa privada, principalmente nos EUA, mas ainda com foco nacional.

A próxima edição o Abrasat Notícias trará a continuação da história das consolidações no setor satélites. Começando pela quebra do monopólio do Intelsat. Não perca.

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