A União Europeia considera o Brasil e a América Latina parceiros estratégicos para sua agenda espacial, em áreas que vão da observação da Terra à conectividade, inovação e sustentabilidade. A avaliação foi apresentada por Beatrice Covassi, ministra-conselheira da União Europeia no Brasil, durante o Congresso Latinoamericano de Satélites.
Segundo Covassi, o espaço deixou de ser um tema restrito à pesquisa científica e passou a ser uma infraestrutura crítica para as sociedades. Ela destacou três transformações principais: a abertura do setor a empresas privadas e novos países, a expansão do uso de dados e inteligência artificial e o aumento da disputa no ambiente espacial, marcado por interferências de radiofrequência, detritos, manobras orbitais e outras ameaças aos sistemas em operação.
Copernicus, Galileo, IRIS²
A representante europeia apresentou os principais programas espaciais da União Europeia, entre eles o Galileo, voltado à navegação e posicionamento, e o Copernicus, sistema de observação da Terra. Também destacou o IRIS², programa europeu de conectividade segura, e o sistema de vigilância e rastreamento espacial utilizado para acompanhar objetos em órbita.
No caso do Copernicus, Covassi ressaltou a expansão da constelação Sentinel e a ampliação dos serviços baseados nos dados de observação da Terra. O programa fornece informações abertas para aplicações relacionadas a clima, oceanos, agricultura, qualidade do ar, gestão de recursos naturais e resposta a desastres. Para a América Latina, segundo ela, os dados podem contribuir especialmente para o monitoramento de desmatamentos, queimadas, recursos hídricos e eventos climáticos extremos.
Outro eixo da estratégia europeia é a conectividade segura. Covassi destacou a evolução do IRIS², que prevê uma constelação de satélites em órbita baixa voltada a comunicações seguras para governos, empresas e cidadãos. Entre as aplicações estão comunicações criptografadas, gestão de crises, proteção de infraestruturas críticas e conectividade em regiões rurais e áreas sem cobertura adequada.
A ministra-conselheira também defendeu a autonomia estratégica europeia no setor espacial, sem que isso signifique isolamento. Entre as prioridades estão o desenvolvimento de capacidades próprias de acesso ao espaço, o estímulo a novos lançadores e a criação de regras comuns para segurança e sustentabilidade das atividades espaciais. A Comissão Europeia prepara, nesse sentido, uma legislação espacial voltada à gestão do tráfego e à redução de riscos de colisões e detritos.
Brasil como parceiro
Covassi destacou que a relação espacial entre Europa e América Latina já possui uma base de cooperação. Ela lembrou que os lançadores europeus utilizam o Centro Espacial de Kourou, na Guiana Francesa, e citou acordos firmados com países latino-americanos para acesso aos dados do Copernicus.
No Brasil, destacou a parceria entre a Agência Espacial Brasileira (AEB), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e a Agência Espacial Europeia (ESA), que possibilitou a criação de um polo regional para acesso e análise dos dados dos satélites Sentinel. Também mencionou a parceria digital assinada entre Brasil e União Europeia, que inclui temas como dados, inteligência artificial, conectividade e inovação.
Para ampliar essa cooperação, Covassi apontou quatro frentes: uso conjunto de dados e desenvolvimento de aplicações de inteligência artificial; capacitação e formação de especialistas; aproximação entre empresas e startups dos dois lados do Atlântico; e cooperação em governança espacial, com foco em segurança, sustentabilidade, regras para o tráfego orbital e redução de detritos.
Na avaliação da representante europeia, a cooperação internacional será cada vez mais necessária diante da expansão das atividades espaciais. “O espaço é um bem comum” e nenhum país pode protegê-lo sozinho, afirmou. Nesse cenário, Brasil e América Latina, segundo Covassi, reúnem capacidade técnica, talento e recursos que podem contribuir para uma agenda espacial conjunta com a Europa.


