Setor aposta em redes multi-órbita e integração com terrestre

LEO

O mercado de satélites passa por uma mudança de arquitetura, com a combinação de diferentes órbitas, redes terrestres e modelos de parceria ganhando espaço nas estratégias dos operadores. O movimento foi discutido no Summit Executivo “Cenário competitivo e econômico”, durante o Congresso Latinoamericano de Satélites, que reuniu executivos da Eutelsat, SES, Hispasat, Viasat, Telesat, StarOne/Claro Empresas e Agility Beyond Space.

Para Ricardo La Guardia, vice-presidente de Vendas para as Américas da SES, a evolução das redes terrestres mudou as premissas que orientaram projetos como o SGDC-1, concebido para oferecer ampla cobertura do território brasileiro. Com a expansão da infraestrutura terrestre, o dimensionamento da capacidade satelital pode ser mais direcionado à demanda. “O conceito pelo qual o satélite foi feito há quase 15 anos não atende hoje à necessidade desse momento”, afirmou.

A SES aposta em uma arquitetura multi-órbita, combinando GEO, MEO e LEO de acordo com a aplicação. La Guardia também apontou a necessidade de reduzir o ciclo de produção dos satélites e afirmou que a empresa trabalha para chegar a menos de 12 meses entre o início da fabricação e a entrega de uma espaçonave, além de desenvolver terminais mais competitivos com parceiros.

O executivo informou que a SES iniciou a construção de uma nova fábrica de satélites em Kockelscheuer, em Luxemburgo. A unidade fortalece a integração vertical da empresa, permitindo projetar, desenvolver e fabricar tecnologias espaciais de ponta internamente. A iniciativa ocorre logo após a conclusão da primeira configuração da constelação O3b mPOWER em órbita média (MEO), cujos últimos satélites foram lançados em setembro de 2026.

Integração de redes

Na Eutelsat, a integração da rede LEO com infraestrutura terrestre é parte central da estratégia. Rodrigo Campos, diretor-geral da companhia no Brasil, destacou que uma operação LEO depende de cinco elementos: satélites, rede terrestre, terminais, regulação e lançadores. Este último pode se transformar em gargalo diante da necessidade de colocar em órbita e substituir milhares de satélites.

A empresa mantém uma rede MPLS global e vem desenvolvendo terminais para aplicações específicas, como transporte ferroviário, operações offshore, aviação e defesa. Segundo Campos, 25% da receita da Eutelsat já estava vinculada à operação LEO no último ano fiscal, com crescimento de 69%. A companhia prevê ainda o lançamento de 669 satélites adicionais da OneWeb.

O movimento também altera o papel de empresas tradicionalmente associadas à infraestrutura GEO. Lincoln Oliveira, diretor-geral da StarOne/Claro Empresas, afirmou que a companhia vem combinando seus cinco satélites geoestacionários com capacidade de operadores de LEO e MEO. A estratégia é atuar como integradora e oferecer ao cliente a tecnologia mais adequada para cada aplicação.

A mesma lógica aparece na estratégia da Telesat. Dolores Martos, vice-presidente regional de Vendas para América Latina e Caribe, afirmou que a constelação LEO Lightspeed foi concebida para clientes corporativos e governamentais, com integração às redes terrestres. Um contrato com o governo canadense para conectividade das Forças Armadas no Ártico levou à ampliação da constelação em 69 satélites, que terão capacidade para aplicações militares e comerciais.

Na Viasat, a integração de redes também está no centro da estratégia. Tito Purwin, CFO para a América Latina, afirmou que o Brasil é um mercado prioritário para soluções de conectividade crítica, defesa e inclusão digital. A integração das operações da Inmarsat e da RigNet ampliou o portfólio da companhia, que pretende levar ao país soluções combinando diferentes redes.

Um dos exemplos é o NexusWave, plataforma voltada ao mercado marítimo que combina redes satelitais multi-órbita e redes terrestres. Segundo Purwin, mais de 2 mil embarcações já utilizam a solução. A empresa pretende aplicar conceito semelhante em outros segmentos, como aviação.

Compartilhamento de infraestrutura

A necessidade de reduzir o volume de capital empregado no setor também favorece modelos de compartilhamento. Purwin citou a criação, em parceria com a Space42, de uma empresa voltada a uma rede LEO para serviços Direct-to-Device (D2D). O projeto prevê aporte inicial de US$ 1 bilhão das empresas fundadoras e poderá receber novos investidores e clientes.
A estratégia de parcerias também é apontada por Felipe Saad Lukowiecki, managing director para as Américas da Agility Beyond Space. A empresa, que trabalha principalmente com capacidade GEO, busca ampliar o portfólio por meio de acordos com outros operadores, inclusive empresas que podem ser concorrentes em determinados mercados.

Na América Latina, a companhia identifica oportunidades especialmente em broadcast e no segmento offshore. Mesmo com a migração de parte do mercado para novas plataformas, Lukowiecki avalia que ainda existe espaço para soluções GEO, principalmente como complemento às redes de novas gerações.

Estado ganha peso nos projetos

A maior participação dos governos foi outro ponto recorrente no debate. A busca por soberania, defesa e conectividade crítica tem aproximado os interesses estatais das estratégias dos operadores.

Para La Guardia, a demanda governamental vem crescendo em áreas como inclusão digital, defesa, segurança pública, saúde e educação. O executivo também destacou a importância de projetos voltados à soberania nacional, em um cenário de maior preocupação dos países com a segurança de suas infraestruturas de comunicação.

Sérgio Chaves, head de vendas da Hispasat, defendeu a participação do Estado em projetos destinados a localidades onde a iniciativa privada, isoladamente, não encontra condições econômicas para operar. Nesse contexto, modelos de parceria público-privada podem ganhar relevância.

Chaves também citou o conceito de um satélite compartilhado por diferentes países, no qual as demandas de cada mercado seriam agregadas para viabilizar uma infraestrutura comum. A proposta se aproxima da lógica de integração que vem sendo buscada pelos operadores e pode ser aplicada a projetos de capacidade soberana.

A RFI da Telebras foi citada como um exemplo dessa mudança. Ao abrir espaço para diferentes configurações tecnológicas e modelos de operação, o processo permite que operadores apresentem alternativas que combinem capacidade própria e de terceiros, diferentes órbitas e modelos de parceria.

D2D: tecnologia viável, modelo de negócio ainda em definição

O avanço do Direct-to-Device aparece como uma das principais novas fronteiras do setor. Dados apresentados no painel indicam que aproximadamente 95% da população brasileira está coberta por redes móveis, mas essa cobertura está concentrada em cerca de 20% do território. O restante representa um mercado potencial para a comunicação direta entre satélites e dispositivos móveis.

Para Lincoln Oliveira, o D2D deverá atuar principalmente como complemento às redes móveis. O uso exclusivo de satélites para atender a totalidade dos usuários seria economicamente pouco eficiente, especialmente em áreas de alta concentração de demanda, onde a infraestrutura terrestre continua sendo mais adequada.

A Viasat já possui uma solução D2D em funcionamento e vê aplicações em comunicação direta com celulares, IoT e serviços de emergência. Para a companhia, trata-se de um dos segmentos com maior potencial de crescimento.
O desafio, entretanto, não é mais comprovar a viabilidade tecnológica da solução. Segundo Rodrigo Campos, a questão agora é determinar o tamanho efetivo do mercado, o preço que o consumidor estará disposto a pagar e os modelos regulatórios necessários para operações em diferentes países.

O executivo também vê espaço para startups e operadores de nicho, inclusive em IoT, D2D, satélites de menor custo e novas tecnologias de lançamento. Mas alerta que a consolidação dependerá da capacidade de transformar essas soluções em negócios sustentáveis.

O debate mostrou, assim, que a competição no setor deixa de ser definida apenas pela posse de satélites. A capacidade de combinar GEO, MEO e LEO, integrar redes terrestres, compartilhar infraestrutura e estabelecer parcerias passa a ser um diferencial. Ao mesmo tempo, a participação crescente dos governos coloca soberania, defesa e políticas públicas no centro das decisões sobre a próxima geração de infraestrutura espacial.

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