D2D: operadoras móveis e satelitais começam a redefinir mercado brasileiro

D2D

A entrada do D2D (direct-to-device) no mercado brasileiro dá início a uma nova relação entre operadoras móveis e operadoras satelitais. Com o início das ofertas comerciais e o anúncio de acordos envolvendo diferentes empresas, o setor passa a testar não apenas a viabilidade técnica da conexão direta entre satélites e celulares, mas também os modelos de negócio que sustentarão o serviço. Esta edição do Abrasat Notícias faz uma síntese do cenário atual nesse mercado.

O ponto central está na divisão de papéis entre os parceiros. As operadoras móveis já têm a base de assinantes, os canais de venda e o relacionamento comercial com os usuários. Os provedores satelitais entram com a infraestrutura necessária para levar conectividade a áreas fora do alcance das redes terrestres. Essa complementaridade viabiliza o serviço, mas também coloca em discussão como serão divididas as receitas e qual será o espaço de cada participante na expansão do mercado.

Os acordos anunciados no Brasil também mostram que a tecnologia não está vinculada a uma única configuração de espectro. Enquanto uma das ofertas comerciais utiliza frequências de 2,6 GHz associadas à rede móvel da operadora parceira, outros acordos preveem o uso da faixa de 700 MHz. A escolha das frequências influencia as condições técnicas de operação e integra uma discussão mais ampla sobre a convivência entre redes terrestres e sistemas satelitais.

O desafio regulatório

A Anatel aprovou em julho/26 a atribuição em caráter secundário ao D2D uma lista de faixas usadas na telefonia móvel (700 MHz, 850 MHz, 900 MHz, 1.800 MHz, 1.900/2.100 MHz e 2.500 MHz). A utilização do espectro pelas empresas de satélites deverá ocorrer sempre em parceria com operadoras terrestres detentoras das faixas.

O uso de frequências associadas ao Serviço Móvel Pessoal (SMP) por sistemas satelitais exige condições claras de operação, coordenação entre sistemas e prevenção de interferências. Também será necessário definir as responsabilidades de cada participante e as condições para a entrada de novos agentes, de modo que os diferentes modelos comerciais possam coexistir sem comprometer a competição.

A Anatel mantém um sandbox regulatório para aplicações D2D até abril de 2029, no âmbito do qual projetos experimentais podem utilizar temporariamente frequências destinadas ao SMP, conforme as autorizações concedidas. A passagem da experimentação para operações comerciais em maior escala torna mais urgente a definição do enquadramento aplicável a esses serviços. As regras terão impacto direto sobre os modelos já em implantação e sobre a possibilidade de outras empresas desenvolverem ofertas próprias.

Quem vai capturar o valor do D2D?

A expansão dos serviços será acompanhada por outra questão: até onde poderá chegar a oferta comercial e qual será o retorno para os parceiros? Aplicações iniciais mais restritas de conectividade poderão dar lugar a serviços com recursos adicionais, como voz e acesso à internet. Essa evolução, no entanto, não significa necessariamente maior rentabilidade. O resultado dependerá dos custos de infraestrutura e capacidade satelital, da disposição dos usuários a pagar e das condições de remuneração estabelecidas entre as empresas.

O fim dos períodos promocionais de gratuidade será um dos primeiros indicadores da aceitação comercial das ofertas. A conversão dos usuários em clientes pagantes ajudará a dimensionar a demanda efetiva, embora não seja suficiente, isoladamente, para determinar a rentabilidade das operações. Para isso, também será necessário conhecer a estrutura de custos e a parcela da receita que caberá a cada parceiro.

Para os provedores satelitais, o D2D abre acesso a uma base potencial de usuários muito superior àquela normalmente alcançada por serviços convencionais de conectividade via satélite. O alcance, porém, não se traduz automaticamente em maior participação econômica. Se a operadora móvel concentrar a distribuição do serviço e o relacionamento com o assinante, a posição do fornecedor satelital na cadeia de valor dependerá, em grande medida, dos termos comerciais negociados.

É nesse ponto que os primeiros acordos poderão servir de referência para a evolução do mercado brasileiro. Mais do que a capacidade de conectar celulares fora da cobertura terrestre, a consolidação do D2D dependerá da combinação entre regras de uso do espectro, viabilidade econômica e equilíbrio entre os parceiros.

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