Inatel realiza workshop sobre comunicações via satélite

Inatel

Lideranças da Abrasat e do Sindisat prestigiaram, no final de junho, o “Workshop de Comunicações Via Satélite, LEO, NTN e 5G/6G”, organizado pelo Instituto Nacional de Telecomunicações – Inatel, uma das maiores referências e pioneira no ensino e desenvolvimento de engenharia de telecomunicações no Brasil.

O evento realizou-se no campus da própria instituição, e reuniu além de alunos e representantes da academia, profissionais da indústria, de operadoras satelitais, de entidades regulatórias e de órgãos governamentais. O workshop acontece em um momento em que a indústria de comunicações por satélite atravessa uma das maiores transformações de sua história.

Fundado em 1965, o Inatel teve um papel crucial para o setor no país: foi a primeira instituição de ensino superior do Brasil a oferecer um curso de graduação específico em Engenharia de Telecomunicações na cidade de Santa Rita de Sapucaí, em Minas Gerais, que ficou nacionalmente conhecida como o “Vale da Eletrônica”, atraindo e gerando centenas de empresas de tecnologia e startups na região. A seguir um resumo dos principais temas discutidos durante o evento.

NTN: o satélite deixa de ser uma rede isolada

Durante o workshop, os palestrantes destacaram que o conceito de Non-Terrestrial Networks (NTN) representa uma mudança estrutural na forma como as redes de telecomunicações são concebidas. Em vez de operar como sistemas independentes, os satélites passam a integrar o ecossistema das redes móveis, utilizando padrões definidos pelo 3GPP e pela UIT, a organização responsável pelas especificações do 5G.

Isso significa que um mesmo dispositivo poderá alternar automaticamente entre redes terrestres e satelitais, mantendo a conectividade mesmo em regiões remotas, oceanos, áreas rurais ou durante desastres naturais.

Essa padronização reduz a complexidade para fabricantes, operadoras e desenvolvedores de aplicações, criando um ambiente muito mais favorável para a expansão dos serviços via satélite.

As NTN também ampliam significativamente o mercado da indústria espacial, permitindo que satélites atendam não apenas aplicações tradicionais de backhaul e broadcasting, mas também comunicações móveis diretas, IoT massiva e serviços críticos de missão.

A integração entre 5G e satélites já começou

A incorporação dos satélites ao ecossistema 5G deixou de ser um conceito para se tornar uma realidade.

Durante o workshop, os especialistas mostraram que as versões mais recentes das especificações do 3GPP já contemplam suporte a comunicações via satélite, abrindo caminho para serviços conhecidos como Direct-to-Device (D2D), nos quais smartphones conseguem estabelecer comunicação diretamente com satélites, sem necessidade de equipamentos dedicados.

Para os especialistas presentes no evento, o mercado apresenta forte potencial de crescimento. As estimativas apontam que o segmento Direct-to-Device poderá movimentar entre US$ 30 bilhões e US$ 35 bilhões até 2035, enquanto o número de dispositivos IoT conectados por satélite deverá crescer de aproximadamente 5 milhões para 2,5 bilhões no mesmo período.

Inicialmente, esses serviços concentram-se em mensagens de emergência, localização e SMS. Entretanto, a tendência é uma evolução gradual para voz e, posteriormente, transmissão de dados em banda larga.

O 6G nasce com o satélite como elemento nativo

Diferentemente das gerações anteriores, o 6G está sendo concebido desde o início como uma rede verdadeiramente tridimensional.

Nos fóruns internacionais de pesquisa e padronização, existe consenso de que o 6G deverá integrar, de forma transparente: redes celulares terrestres; satélites GEO, MEO e LEO; plataformas aéreas de alta altitude (HAPS); drones; sensores distribuídos. Essa arquitetura permitirá cobertura praticamente global, reduzindo as diferenças entre áreas urbanas e regiões remotas.

Outro aspecto relevante é que o 6G deverá incorporar inteligência artificial nativamente na operação das redes, permitindo gerenciamento dinâmico do tráfego entre diferentes camadas de infraestrutura, incluindo os satélites.

A regulação internacional

Outro tema abordado durante o workshop foi o papel da regulação internacional no desenvolvimento das comunicações por satélite. Segundo os palestrantes, o sucesso do setor depende não apenas da engenharia, mas também da atuação estratégica nos organismos responsáveis pela gestão do espectro de radiofrequências.

Projetos de grande porte, como constelações de satélites em órbita baixa (LEO), que demandam investimentos bilionários, somente se tornam viáveis quando existe segurança regulatória. Investidores precisam ter garantias de que os sistemas poderão operar legalmente nos diversos países onde prestarão serviço. A construção da regulamentação global é resultado de um longo processo de negociação técnica, política e econômica entre governos, empresas e especialistas.

Por fim, os palestrantes reforçaram que o mercado de satélites atual demanda profissionais muito mais completos do que apenas especialistas em aspectos técnicos. Para atuar em um setor altamente internacionalizado como o de telecomunicações por satélite, é necessário compreender também questões regulatórias, econômicas, políticas e de negócios. Essa visão multidisciplinar amplia as oportunidades de atuação profissional e permite que engenheiros participem das decisões que moldam o futuro das comunicações globais.

TV 3.0

O Painel sobre TV 3.0 destacou o papel estratégico dos satélites na implantação da TV 3.0 no Brasil, ressaltando que a nova geração da televisão digital vai muito além da melhoria da qualidade de imagem e som. Ela representa uma transformação na forma de distribuição e consumo de conteúdo audiovisual.

Os palestrantes enfatizam que o futuro da TV 3.0 está na integração entre radiodifusão (broadcast) e internet (broadband), o que permitirá combinar a ampla cobertura e a confiabilidade da transmissão por rádio e satélite com os recursos interativos e personalizados proporcionados pelas redes IP. Nesse contexto, o satélite deixa de ser visto como uma tecnologia isolada e passa a integrar um ecossistema de distribuição de conteúdo formado por transmissão terrestre, internet e redes via satélite.

Os palestrantes também observaram que, embora o streaming tenha conquistado espaço significativo, persistem desafios relacionados à latência, especialmente em grandes eventos esportivos, congestionamento das redes, custos crescentes de infraestrutura e dificuldade de atender simultaneamente milhões de usuários. Em contraste, a radiodifusão e o satélite distribuem um único sinal para um número ilimitado de receptores, oferecendo maior eficiência, estabilidade e previsibilidade.

Além de continuar desempenhando papel fundamental na distribuição dos sinais entre geradoras e afiliadas de televisão, o satélite deverá permanecer como tecnologia indispensável para a recepção direta dos sinais nas residências (DTH/TVRO), evoluindo de forma compatível com os novos padrões da TV 3.0.

Atualmente, as empresas que compõem o ecossistema estão participando de grupos de trabalho para definirem a evolução da TV 3.0 via satélite, com o objetivo de oferecer uma televisão mais moderna, interativa, acessível e capaz de atender às necessidades de toda a população brasileira.

Participaram como palestrantes no “Workshop de Comunicações Via Satélite, LEO, NTN e 5G/6G”: Sérgio Maia (Hughes/Abrasat); Fábio Alencar (SES/Sindisat); Marcelo Martins (Bedinsat/Abrasat), Bruno Soares (Amazon/Abrasat); Eloi Stivalletti (Eutelsat/Abrasat); Tiago Nunes (Globo/SET); Breno Vale (Abrint); Himilcon Carvalho (Visiona); Beatriz França (Demarest Advogados); Rafael Prata (Anatel); Prof. Carlos Nazareth (Inatel); Prof. Henry Rodrigues (Inatel); Prof. Luciano Mendes (Inatel); Prof. Francisco Portelinha (Inatel); Luis Carlos Correia (Abrasat, auxiliar na curadoria do evento).

Deixe um comentário